Quando os Princípios se Curvam ao Poder
Por André Lima
Tenho refletido com frequência sobre os rumos da
política brasileira e sobre um fenômeno que parece sobreviver ao tempo, aos
partidos e às ideologias: o pragmatismo político.
Em teoria, a política deveria ser o espaço onde
diferentes projetos de sociedade se encontram para debater o futuro de uma
nação. É o lugar da construção coletiva, do confronto de ideias e da busca por
soluções para os desafios comuns.
Na prática, porém, muitas vezes assistimos a um
espetáculo diferente. Princípios antes considerados inegociáveis tornam-se
flexíveis. Adversários históricos tornam-se aliados. Discursos que pareciam
firmes são substituídos por justificativas cada vez mais convenientes. Pouco a
pouco, a busca pelo poder passa a ocupar o lugar dos valores que deveriam
orientá-lo.
Não se trata de um problema exclusivo da esquerda, da
direita ou do centro. Trata-se de uma lógica que, em maior ou menor grau,
parece contaminar toda a estrutura política brasileira.
O aspecto mais preocupante não é a mudança de posição
em si. Mudar de ideia faz parte da experiência humana. O verdadeiro problema
surge quando as mudanças parecem acontecer não por reflexão ou amadurecimento,
mas por conveniência eleitoral.
Quando isso ocorre, algo precioso começa a se perder:
a confiança pública.
A democracia não vive apenas de eleições. Ela depende
da confiança que os cidadãos depositam nas instituições e na palavra daqueles
que os representam. Quando a coerência desaparece, cresce a sensação de que
princípios são apenas instrumentos temporários de disputa política.
E quando a população passa a acreditar que todos agem
da mesma forma, ela deixa de procurar projetos e começa a procurar salvadores.
O Brasil conhece bem esse fenômeno.
Durante o século XX, Getúlio Vargas tornou-se uma das
figuras mais influentes da história nacional. Seus governos promoveram mudanças
profundas, especialmente na legislação trabalhista e na organização do Estado.
Mas sua trajetória também consolidou uma relação política fortemente baseada na
figura do líder.
Milhões de brasileiros passaram a enxergar Getúlio não
apenas como um governante, mas como uma espécie de protetor nacional. A
esperança depositada na construção de instituições muitas vezes foi transferida
para a imagem de uma única pessoa.
Décadas depois, outro episódio revelaria o mesmo
padrão sob uma forma diferente.
Em 1960, Jânio Quadros chegou à Presidência
apresentando-se como o homem que iria moralizar a política brasileira. Sua
campanha utilizava uma vassoura como símbolo da promessa de "varrer"
a corrupção e os vícios da vida pública. Grande parte da população acreditou
que um único líder poderia corrigir problemas acumulados ao longo de gerações.
Menos de sete meses após assumir a Presidência, Jânio
renunciou.
A lição daquele episódio permanece atual. Quando
depositamos expectativas excessivas em indivíduos, cada crise de liderança
transforma-se numa crise coletiva. A esperança sobe rapidamente, mas a
frustração costuma chegar com a mesma intensidade.
Talvez seja justamente por isso que o pragmatismo
político produza consequências tão profundas.
Toda vez que um líder abandona princípios que antes
apresentava como fundamentais, não decepciona apenas seus apoiadores. Ele
enfraquece a própria crença de que a política possa ser guiada por convicções
duradouras.
A consequência é um círculo vicioso. A população perde
confiança nos projetos políticos. Passa a acreditar cada vez menos nas
instituições. E, diante dessa descrença, cresce a tentação de procurar novas
figuras capazes de encarnar a esperança nacional.
É nesse ponto que surge uma das minhas maiores
preocupações.
O Brasil continua sendo uma sociedade com baixo nível
de participação política efetiva. Muitos cidadãos acompanham líderes, mas
poucos acompanham ideias. Defendem nomes, mas raramente defendem programas.
Criam vínculos emocionais com personalidades públicas, mas não desenvolvem a
mesma relação com os valores democráticos que deveriam sustentar a vida
coletiva.
Toda liderança, por mais forte que pareça, é
temporária. Toda liderança envelhece. Toda liderança deixa o palco da história.
O que acontece quando esse vazio surge?
Essa pergunta merece nossa atenção.
Uma sociedade despolitizada, cansada das contradições
da política tradicional e descrente das instituições pode tornar-se vulnerável
a discursos que oferecem respostas simples para problemas complexos.
Nessas circunstâncias, o líder deixa de ser escolhido
pela qualidade de suas propostas e passa a ser escolhido por sua capacidade de
representar uma promessa de redenção moral.
A história mostra que esse fenômeno pode surgir sob
diferentes formas. Pode vestir a linguagem do nacionalismo, do militarismo, da
revolução ou da religião. O formato muda. O mecanismo permanece semelhante.
Por isso considero preocupante qualquer forma de
fundamentalismo político. Quando uma corrente de pensamento passa a acreditar
que possui sozinha todas as respostas para os problemas da sociedade, o espaço
do diálogo democrático começa a diminuir.
A democracia depende da convivência entre diferentes.
Depende da capacidade de discordar sem destruir. Depende da compreensão de que
nenhuma pessoa, partido ou crença possui o monopólio da verdade.
Talvez o maior desafio do Brasil não seja encontrar o
próximo líder.
Talvez seja aprender a construir instituições mais
fortes do que os líderes.
Uma democracia madura não é aquela que encontra um
salvador.
É aquela que deixa de precisar dele.
Por isso continuo acreditando que existem valores que
não deveriam ser negociados.
A dignidade humana não é negociada.
Nem mesmo para assumir o poder.

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