Série: Prosperocracia — fé, poder e a moral do sucesso; Texto 2 — Do mérito à bênção
Há uma ideia que atravessa o nosso tempo quase sem ser questionada. A de que cada pessoa está exatamente onde merece estar. Quem vence, merece. Quem perde, falhou. Simples assim. Ou pelo menos… parece simples. No Brasil contemporâneo, essa ideia ganhou força. Ela aparece em discursos, em redes sociais, em conversas cotidianas. A noção de que o esforço individual é o principal, às vezes o único, responsável pelo sucesso. Essa é, em linhas gerais, a lógica da Meritocracia. E, em parte, ela faz sentido. Ninguém nega o valor do esforço, da disciplina, da dedicação. O problema começa quando essa ideia deixa de ser um princípio…, e passa a ser uma explicação total da realidade. Porque a realidade não é simples. Ela é atravessada por desigualdades, por histórias, por condições que não escolhemos. E ignorar isso não torna o mundo mais justo. Apenas torna a explicação mais confortável. É nesse ponto que algo começa a mudar. De forma quase imperceptível. O mérit...