Patriotismo e Ignorância Existencial: Entre a Farsa e a Esperança
O
bolsonarismo dividiu o Brasil em torcidas organizadas. E essa talvez seja uma
das afirmações mais recorrentes nos últimos anos. Mas há uma ironia nessa
divisão: ela revela algo que há muito tempo habitava silenciosamente a alma
brasileira — a ignorância existencial que ainda define parte do nosso modo de
ser coletivo. Talvez, justamente por ser tão exposta, essa ignorância possa nos
unir... ao menos na urgência de superá-la.
O
conceito de patriotismo tem sido deturpado em nosso país. A palavra “patriota”,
que vem do grego “patriṓtēs” (companheiro de pátria), deveria significar
vínculo, solidariedade, dever cívico. Mas foi sequestrada por ideologias de
ódio, transformada em sinônimo de exclusão, violência simbólica e,
recentemente, até traição.
Como
pode alguém se dizer patriota enquanto pede uma intervenção estrangeira em seu
próprio país? Como foi o caso recente, envolvendo membros da família Bolsonaro,
que buscaram apoio de setores conservadores dos Estados Unidos para pressionar
por anistia aos golpistas do 8 de janeiro inclusive do próprio patriarca do clã?
Isso
não é patriotismo. Isso é oportunismo com bandeira nas costas.
Sob a
luz da filosofia, Alasdair MacIntyre nos mostra que o patriotismo pode ser uma
virtude ou um vício. Ele só é virtuoso quando se ancora na justiça, no diálogo,
na solidariedade. Quando vira slogan vazio, torna-se uma farsa. Nietzsche, por
sua vez, alertava para o perigo da moral dos ressentidos — onde o que move não
é a construção do bem, mas o desejo de destruir o outro. E é esse o pano de
fundo do bolsonarismo.
A
psicologia social ensina que o narcisismo coletivo — essa necessidade de se
afirmar através de um “inimigo interno” — é um sintoma de insegurança profunda.
Não é amor à pátria. É medo do próprio fracasso, projetado nos outros.
A antropologia e a sociologia nos lembram que o patriotismo saudável se
constrói com memória, cultura e pertencimento. Mas no Brasil, o que se
construiu foi um patriotismo ressentido, que se vê traído toda vez que alguém
pobre, preto, do Nordeste, chega ao poder. Um patriotismo que só é patriota
quando os donos da pátria são os mesmos de sempre.
O bolsonarismo se travestiu de amor à pátria, mas operou como força de
sabotagem da democracia. Usou símbolos nacionais como escudos ideológicos.
Rejeitou a diversidade, a crítica, a escuta. E agora, seus ecos buscam apoio
internacional para evitar as consequências legais de seus próprios atos.
Que tipo de “patriota” pede aos Estados Unidos para intervir em seu próprio
país?
A resposta não é só política. É existencial.
É o
patriota que nunca se sentiu parte do Brasil real. Que teme perder seus
privilégios. Que prefere ver o país em ruínas a vê-lo governado por quem
considera “indigno”. É o patriota que ama a pátria imaginária, mas odeia o povo
real.
Filosofar sobre o patriotismo é denunciar essa farsa.
Ser
patriota de verdade é lutar por justiça social. É defender a Constituição. É
reconhecer que a pátria só será pátria para todos quando a educação for
universal, a saúde pública for digna e os direitos civis forem garantidos, não
só para os amigos, mas também para os “inimigos”.
Talvez
a ignorância existencial do bolsonarismo possa nos unir. Não pelo ódio, mas
pela consciência de que não podemos mais sustentar um país sobre o medo, a
mentira e a manipulação.
O
verdadeiro patriotismo é aquele que se constrói com coragem de pensar, vontade
de aprender e compromisso com o bem comum.
E isso
não se importa com partido, ideologia ou sobrenome.
Se
chama: consciência cívica. E o Brasil está precisando dela — mais do que nunca.

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