Série: Prosperocracia — fé, poder e a moral do sucesso; Texto 1 — O nascimento de um conceito
Há algo acontecendo no Brasil contemporâneo que não
cabe mais apenas em opinião, em debate de redes sociais ou em impressões
soltas.
Há algo que precisa ser nomeado.
Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento
expressivo do movimento evangélico no país. Esse crescimento, por si só, não é
um problema. A fé sempre fez parte da experiência humana. Ela organiza o
sentido da vida, cria pertencimento, sustenta pessoas em momentos de dor. Mas o
que chama atenção não é apenas o crescimento da fé. É o deslocamento dela.
A religião, que durante muito tempo ocupou
predominantemente o espaço privado e comunitário, começa a avançar de forma
cada vez mais visível sobre o espaço público, especialmente sobre a política.
E isso, por si só, também não seria necessariamente um
problema.
A questão começa quando essa presença deixa de ser
apenas participação…, e passa a ser projeto.
Hoje, é possível perceber um movimento claro:
políticos disputam o campo religioso, adaptam discursos, incorporam símbolos,
moldam sua linguagem para dialogar com esse público. A fé deixa de ser apenas
convicção pessoal e passa a ocupar o centro da estratégia política. Nesse
cenário, uma lógica específica ganha força; associada à chamada Teologia da
Prosperidade.
Nessa perspectiva, a prosperidade material não é
apenas uma condição de vida. Ela passa a ser interpretada como sinal de bênção.
Como evidência de mérito espiritual. Quase como prova de aprovação divina. A
riqueza deixa de ser apenas riqueza. Ela se torna argumento. E, pouco a pouco,
esse argumento atravessa a política.
Não de forma explícita, muitas vezes.
Mas de forma simbólica, cotidiana… naturalizada.
O sucesso passa a falar por si.
E talvez seja exatamente aí que mora o problema.
Porque quando o sucesso deixa de ser algo a ser
explicado…, e passa a ser aquilo que explica tudo, algo muda na forma como
enxergamos o poder. Foi a partir dessa inquietação que surgiu a necessidade de
um conceito: Prosperocracia.
O que é Prosperocracia?
Prosperocracia é uma
forma de organização simbólica e política na qual a prosperidade material passa
a ser utilizada como critério de legitimação do poder.
Não se trata apenas de governar para gerar
prosperidade. Trata-se de algo mais sutil: governa quem prospera…, e prospera
quem, supostamente, foi legitimado. Aqui, o sucesso não é só resultado. Ele se
torna justificativa.
Por que esse conceito importa
Talvez alguém possa dizer: isso sempre existiu.
E, em parte, é verdade.
A relação entre fé e poder nunca foi exatamente uma
novidade. Ao longo da história, diferentes sociedades aproximaram religião e
política de diversas formas. Basta lembrar as reflexões de Max Weber sobre a
relação entre ética religiosa e formação do espírito do capitalismo, ou os
estudos de Paul Freston sobre o papel das igrejas evangélicas no Brasil.
Mas o que parece novo, ou pelo menos mais visível, é a
forma como essa relação se reorganiza no presente.
Não se trata apenas de fé influenciando valores. Trata-se
de uma lógica onde: o sucesso material ganha significado moral…
e esse significado passa a legitimar o poder. E quando isso acontece, a
desigualdade corre um risco silencioso: deixar de ser problema…
e passar a ser interpretada como evidência.
Um ponto de atenção
É importante dizer isso com clareza: este não é um
texto contra a fé.
Nem contra religiosos na política. A fé, quando vivida como experiência pessoal
e comunitária, pode ser fonte de sentido, de ética, de solidariedade. O
problema começa quando ela é instrumentalizada.
Quando deixa de ser vivida… e passa a ser utilizada.
O início de uma conversa
Este texto não pretende encerrar o debate.
Pelo contrário.
Ele é apenas o começo.
Nos próximos textos, vamos aprofundar essa ideia,
explorando suas relações com conceitos já conhecidos, como a Meritocracia, suas
diferenças em relação à Teocracia, e seus impactos na forma como entendemos
desigualdade, poder e justiça no Brasil contemporâneo.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja se a
prosperocracia existe ou não. Mas se estamos, pouco a pouco, aprendendo
a aceitá-la como natural. E, quando isso acontece…
quase sempre já estamos dentro dela.

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