O Brasil e suas elites: entre o privilégio e a ignorância que sustenta o mundo
Fala-se muito sobre as elites brasileiras. Critica-se,
acusa-se, aponta-se. Mas talvez o problema seja mais profundo do que parece à
primeira vista. Não se trata apenas de pessoas que ocupam posições de poder.
Trata-se de uma forma de pensar — ou, mais precisamente, de não pensar.
No debate conduzido por William Waack, com a
participação de Eduardo Giannetti, Eugênio Bucci e Sergio Fausto, fica evidente
que há uma crise nas elites do Brasil. Uma crise que não é apenas política ou
econômica, mas também moral, simbólica e intelectual. As elites parecem ter
perdido a capacidade de representar o país, ou talvez nunca tenham realmente
assumido essa função.
Mas ao olhar com mais atenção, surge uma inquietação
maior: será que esse problema pertence apenas às elites?
A história do Brasil, como bem analisa Caio Prado
Júnior, não foi construída a partir de um projeto coletivo de nação. Desde o
início, o país foi organizado para atender interesses externos e explorar
recursos. Isso deixou marcas profundas. Criou-se uma lógica onde o coletivo
nunca foi prioridade real, apenas uma ideia distante, quase decorativa.
Com o tempo, essa lógica se refinou. Como aponta Jessé
Souza, a desigualdade no Brasil não é apenas econômica. Ela é também simbólica.
Aprende-se, muitas vezes sem perceber, que alguns valem mais do que outros. E o
mais perigoso: isso passa a parecer natural.
Nesse cenário, Marilena Chaui ajuda a entender que não
vivemos apenas em uma sociedade desigual, mas em uma sociedade que organiza a
desigualdade como valor. Cada um no seu lugar. Cada um sabendo até onde pode
ir. E, quando alguém ultrapassa esse limite invisível, o incômodo aparece.
Já Celso Furtado mostra que esse processo não é apenas
interno. Ele está ligado à forma como o Brasil se inseriu no mundo. Um país que
cresce, mas de maneira desigual. Que se desenvolve, mas sem integrar sua
própria população.
Diante disso tudo, a crítica às elites ganha outro
peso. Porque talvez elas não sejam apenas responsáveis pelo problema, mas
também produto dele.
E é aqui que surge uma ideia que precisa ser
enfrentada com cuidado: a de uma ignorância existencial.
Não se trata de falta de informação. Nunca tivemos
tanto acesso ao conhecimento. Trata-se de algo mais profundo: uma dificuldade
de se reconhecer como parte de um todo. De entender que a própria existência
está ligada à existência do outro.
Paulo Freire já alertava que não há transformação sem
consciência crítica. Mas essa consciência não nasce sozinha. Ela exige esforço,
confronto, desconforto. E, muitas vezes, o que vemos é o contrário: uma
tentativa constante de manter tudo como está.
Talvez por isso o problema das elites não seja apenas
delas. Porque, no fundo, muitos não querem mudar a lógica; querem apenas mudar
de lugar dentro dela.
E assim seguimos. Reproduzindo um modelo que
criticamos, mas que também sustentamos. Como vítimas e algozes de um mesmo
processo.
Pensar o Brasil, então, exige mais do que apontar
culpados. Exige reconhecer a estrutura que nos formou e, ao mesmo tempo,
assumir a responsabilidade de transformá-la.
Isso não é simples. Não é rápido. E talvez nem seja
confortável.
Mas pode ser necessário.
Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é
apenas sobre as elites.
É sobre nós.

Comentários
Postar um comentário
Respeito é tudo. Obrigado