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O Bolsonaro está preso. O bolsonarismo não - Um ensaio crítico de repúdio ao bolsonarismo enquanto fenômeno cultural e autoritário.

 


Um ensaio crítico de repúdio ao bolsonarismo enquanto fenômeno cultural e autoritário.

 

Existe uma fragilidade perigosa dentro das democracias modernas: acreditar que toda tolerância é sinal de civilidade. Nem sempre é. Em alguns momentos da história, tolerar determinadas práticas e discursos significa permitir que a própria democracia seja corroída por dentro.

O filósofo Karl Popper chamou isso de “paradoxo da tolerância”. Segundo ele, uma sociedade que tolera ilimitadamente os intolerantes corre o risco de ser destruída exatamente por eles. Parece exagero à primeira vista. Mas basta observar o Brasil dos últimos anos para perceber que não se trata apenas de teoria filosófica.

Durante muito tempo, parte da sociedade brasileira tratou discursos violentos, preconceituosos, anticientíficos e autoritários como simples “opiniões políticas”. Como se defender tortura, atacar instituições democráticas, desacreditar a ciência ou incentivar o ódio social fossem apenas formas diferentes de pensar.

Não são.

A democracia não pode ser obrigada a aceitar, passivamente, forças que trabalham diariamente para destruí-la.

Foi nesse ambiente de omissão moral, medo institucional e abandono educacional que o bolsonarismo cresceu.

E é importante dizer algo com clareza: Jair Bolsonaro não inventou o autoritarismo brasileiro. Bolsonaro não criou o preconceito, a violência política ou o desprezo pelo pensamento crítico. Ele apenas deu voz, visibilidade e autorização social a tudo aquilo que já existia escondido nos porões da sociedade brasileira.

O bolsonarismo trouxe novamente à superfície velhos fantasmas da ditadura militar:

  • o culto à violência;
  • o desprezo pelos direitos humanos;
  • o anti-intelectualismo;
  • o negacionismo científico;
  • a perseguição simbólica contra professores, artistas e jornalistas;
  • e a ideia perversa de que pensar criticamente representa uma ameaça à ordem social.

Talvez uma das características mais perigosas desse fenômeno tenha sido transformar a ignorância em identidade política.

E aqui entra algo que considero central para compreender o Brasil atual: a ignorância existencial.

Ignorância existencial não significa apenas falta de informação. Significa a recusa em refletir criticamente sobre a realidade, sobre as consequências das próprias ações e sobre o impacto humano das ideias que defendemos. É quando a pessoa abandona a busca pela compreensão porque sua identidade emocional depende justamente da manutenção da cegueira. 

Nesse estágio, o indivíduo já não busca verdade. Busca pertencimento.

Por isso vemos pessoas defendendo absurdos evidentes, compartilhando desinformação, atacando instituições científicas e até transformando comportamentos perigosos em espetáculo político nas redes sociais. É o que justifica o “8 de janeiro” e ou alguém supostamente ingerindo detergente. O importante deixa de ser a realidade objetiva. O importante passa a ser demonstrar fidelidade ao grupo.

O problema é que sociedades movidas por fanatismo emocional deixam de construir soluções coletivas. Tudo vira guerra cultural. Tudo vira torcida organizada. A ciência vira ideologia. A educação vira ameaça. O pensamento crítico passa a ser tratado como inimigo.

O bolsonarismo compreendeu profundamente o funcionamento emocional desse cenário.

Transformou agressividade em autenticidade.

Ignorância em “verdade popular”.

Violência verbal em coragem.

Preconceito em liberdade de expressão.

E ressentimento em identidade coletiva.

Mas existe um limite que toda sociedade democrática precisa reconhecer.

Tolerar não significa aceitar a destruição das bases civilizatórias da convivência humana.

Não existe democracia saudável quando:

  • a ciência é tratada como conspiração;
  • professores são vistos como inimigos;
  • jornalistas são perseguidos;
  • minorias são desumanizadas;
  • e a violência política passa a ser considerada normal.

Toda tolerância possui limites éticos. E reconhecer isso não é autoritarismo. É responsabilidade social, republicana e democrática.

O Brasil vive hoje um dos momentos mais perigosos de sua história recente justamente porque ainda existe dificuldade em enfrentar o bolsonarismo como fenômeno cultural, psicológico e político. Muitos preferem chamar tudo de “polarização”, como se existisse equivalência moral entre defender democracia e defender práticas autoritárias.

Não existe.

Uma sociedade não sobrevive quando relativiza permanentemente a barbárie em nome de uma falsa neutralidade.

Talvez por isso a frase faça tanto sentido:

“O Bolsonaro está preso. O bolsonarismo não.”

Porque o problema nunca foi apenas um homem.

O bolsonarismo continua presente:

  • no desprezo pela educação;
  • no ódio ao pensamento crítico;
  • na cultura da humilhação;
  • no fanatismo político;
  • no autoritarismo cotidiano;
  • e na incapacidade coletiva de compreender que liberdade exige responsabilidade ética.

A prisão de líderes pode limitar indivíduos. Mas somente educação crítica, consciência histórica e responsabilidade social podem impedir que mentalidades autoritárias continuem se reproduzindo dentro da própria sociedade.

E talvez esteja justamente aqui a pergunta mais importante do nosso tempo:

quantas democracias morreram não apenas pela força dos tiranos, mas pela passividade daqueles que acreditaram que toda intolerância deveria ser tolerada?

 

André Lima

Escritor autônomo | Filosofia, Política e Educação


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