Todo ato é político: minha reflexão sobre o voto e a responsabilidade de existir no Brasil
“Todo ato é político. Assim
sendo, não há neutralidade. O fundamental é entender as intenções deste ato.
Desta forma, não existe a possibilidade de coexistir sem política.”
Essa frase me
veio de repente, quase como um aviso interior. Não sei se a ouvi antes em algum
livro ou se ela apenas amadureceu em mim ao longo do tempo, mas sei que, desde
que a formulei, ela me persegue como verdade difícil de ignorar. Quanto mais
reflito, mais percebo: não existe vida fora da política. Há apenas vida
consciente de sua dimensão política; e vida que foge dela, iludida.
Passei a
compreender com mais profundidade que viver é, o tempo todo, tomar posição.
Mesmo quando acho que estou apenas cuidando da minha própria vida, trabalhando,
educando, calando ou opinando nas redes, estou jogando alguma influência no
mundo. Nesse ponto, me sinto muito próximo da compreensão de Hannah Arendt, que
enxergava a política como algo que nasce simplesmente do fato de existirmos
entre outros. O simples convívio já é político. O encontro já é político. O
conflito, então, nem se fala.
Por muito tempo,
como tantos outros brasileiros, também fui tentado pela ideia confortável da
neutralidade. Acreditar que “não me envolver” seria uma forma de me preservar.
Hoje vejo que isso era apenas um modo elegante de fugir da responsabilidade.
A neutralidade, percebo agora, quase sempre protege a ordem que já está posta,
e a ordem que sempre esteve posta no Brasil é profundamente desigual.
Aprendi com Paulo
Freire que não existe gesto humano neutro. Toda ação educa para algo. Toda
escolha favorece um projeto de mundo. Fingir neutralidade é, muitas vezes,
colaborar sem perceber. Essa constatação dói, porque nos tira da zona
confortável da desculpa: não dá mais para dizer “eu não sabia”, “eu não me
meto”, “isso não é comigo”.
Quando observo a
realidade ao meu redor, entendo também, com a ajuda de Michel Foucault, que o
poder não mora apenas no Palácio do Planalto ou no Congresso Nacional. Ele
circula na escola, na igreja, no mercado, na imprensa, no algoritmo, na
família, nas conversas de bar. Onde há relação humana, há disputa de sentidos.
Por isso, dizer que estou fora da política é, no fundo, apenas não perceber
onde ela já me atravessou.
Mas a frase que
me nasceu não fala só do ato. Ela fala da intenção do ato. E aqui me
apoio em Aristóteles, quando compreendo que toda ação humana busca um fim. O
que importa não é apenas o que faço, mas para onde o meu fazer aponta.
Um mesmo gesto pode libertar ou oprimir, pode construir ou destruir, dependendo
da intenção que o sustenta. A política, então, deixa de ser apenas técnica de
governo e passa a ser, para mim, uma profunda questão ética.
É nesse ponto
que minha reflexão encontra, de forma direta, o papel do eleitor brasileiro
contemporâneo, inclusive o meu próprio papel. Hoje já não consigo mais
olhar para o voto como um simples direito individual. Eu o enxergo como um gesto
que incide sobre a vida concreta de milhões de pessoas. Meu voto não toca
apenas o candidato. Ele toca o prato vazio, o hospital lotado, a escola
sucateada, a periferia abandonada, o trabalhador exausto, a criança invisível.
A literatura
política é clara, quase unânime, ao afirmar que não existe democracia sem
consciência crítica. Norberto Bobbio já alertava que o voto, sozinho, não
sustenta a democracia. Ele precisa vir acompanhado de informação, participação
e responsabilidade. Sem isso, a democracia vira apenas um ritual vazio — uma
aparência sem substância.
No Brasil, onde
a desigualdade não é um acaso, mas herança de um longo projeto histórico de
exclusão, cada escolha eleitoral carrega um peso que vai muito além da opinião
pessoal. Quando eu voto sem refletir sobre as intenções do projeto que apoio,
não faço apenas uma escolha política: eu autorizo um modo de governar vidas.
E isso me torna corresponsável pelos efeitos dessa decisão, ainda que eu tente
me esconder atrás da multidão.
Hoje compreendo
com mais clareza o sentido completo da minha própria frase: não existe
coexistência sem política. Ou participamos dela com consciência, ou seremos
governados, sem perceber, por forças que não nos representam. Não escolher
também é uma escolha. Não se posicionar também é tomar partido, e quase sempre
a favor de quem já detém o poder.
Por isso, quando
reflito sobre o ato de votar, não consigo mais separá-lo da ética, da história
e da responsabilidade humana. Meu voto carrega minha intenção. E minha intenção
carrega consequências que eu não posso mais fingir que não existem.
No fim, o que me
resta é assumir com honestidade aquilo que a própria frase me ensinou:
Se todo ato é
político, então todo descuido também é.
E se não há
neutralidade, o que resta é a responsabilidade.

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