Política, poder e maturidade existencial: Maquiavel ainda nos governa?
Vivemos tempos
em que a indignação se tornou quase automática. Escândalos surgem, nomes
circulam, acusações se acumulam e, em meio a tudo isso, cresce um cansaço
profundo. Cansaço da política, dos políticos e das instituições. Muitos
concluem, não sem razão emocional, que nada presta, nada se salva, nada merece
confiança.
Esse sentimento
é compreensível. Mas ele precisa ser pensado com mais profundidade.
Quando
denunciamos acordos obscuros, pragmatismos cínicos e a distância brutal entre
poder e miséria, não estamos apenas reagindo a fatos isolados. Estamos
descrevendo uma lógica histórica de funcionamento do poder, especialmente no
Ocidente. Uma lógica que encontra em Nicolau Maquiavel, e em sua obra O
Príncipe, um de seus marcos fundadores.
Maquiavel não
escreveu um manual de maldade, como muitas vezes se repete de forma simplista.
Ele escreveu um diagnóstico cru da política real. Em O Príncipe, a
questão central não é a virtude moral, mas a eficácia na conquista e
manutenção do poder. O governante, segundo essa lógica, deve aprender “a
não ser bom” quando a preservação do poder assim exigir. A ética, aqui, não
desaparece; ela é subordinada à sobrevivência do Estado e do governante.
O problema não
está em Maquiavel em si, mas no modo como sua obra foi historicamente
apropriada. Muitos líderes no mundo ocidental beberam dessa fonte sem o devido
cuidado crítico, transformando a política em uma técnica fria de dominação,
onde os fins justificam quase sempre quaisquer meios. O resultado é uma
política descolada da vida concreta das pessoas, especialmente das mais pobres.
É nesse ponto
que a crítica precisa avançar.
Quando afirmamos
que a política brasileira se tornou um espaço de acomodação de interesses,
privilégios e fisiologismo, estamos, na verdade, observando uma versão
vulgarizada e empobrecida do maquiavelismo. Um maquiavelismo sem grandeza
histórica, sem projeto de nação, sem compromisso com o futuro — apenas com a
manutenção imediata do poder.
A política,
então, deixa de ser mediação do bem comum e se converte em espetáculo. Um
espetáculo macabro, onde discursos morais convivem com práticas profundamente
imorais, e onde a miséria de milhões de brasileiros aparece como efeito
colateral tolerável.
Aqui entra a noção de maturidade
existencial coletiva.
Os líderes que
chegam ao poder não surgem do nada. Eles são produtos de uma cultura política,
de uma sociedade que, muitas vezes, aceita a lógica do “é assim mesmo”, do
“pior seria se fosse outro”, do “rouba, mas faz”. Essa tolerância não é neutra.
Ela revela uma imaturidade existencial profunda: a incapacidade de sustentar
princípios éticos mesmo quando isso exige renúncia, paciência e conflito.
Uma sociedade
existencialmente madura não nega a política, nem a idealiza. Ela a compreende
como campo de tensão permanente entre poder, ética e responsabilidade
histórica. Ela sabe que Maquiavel explicou como o poder funciona, mas não
autorizou que isso se tornasse o único horizonte possível da vida política.
Tecnica do poder versus Dignidade
humana
Revisar os modos
operantes da liderança política hoje exige coragem intelectual. Exige perguntar
se ainda aceitaremos governantes que dominam as técnicas do poder, mas
desconhecem a dignidade humana. Exige reconhecer que a manutenção do poder,
quando desvinculada da justiça social, transforma o Estado em máquina de
reprodução da desigualdade.
Em períodos
simbólicos como o Natal, essa contradição se torna ainda mais evidente.
Celebra-se um homem que viveu entre pobres, excluídos e analfabetos, enquanto
se mantém intacta uma estrutura política que produz exclusão em escala
industrial. O Jesus histórico jamais caberia nos cálculos frios do poder
maquiavelizado. Ele seria, muito provavelmente, descartado como ingênuo,
perigoso ou inconveniente.
O verdadeiro
desafio, portanto, não é escolher entre Maquiavel ou a moral religiosa, entre
técnica ou ingenuidade. O desafio é superar a leitura pobre de Maquiavel,
integrando lucidez política com maturidade ética e existencial.
Enquanto isso
não acontecer, continuaremos trocando nomes, partidos e discursos, sem tocar na
lógica profunda que sustenta o poder. E seguiremos chamando de “crise política”
aquilo que, na verdade, é uma crise de consciência coletiva.
Pensar isso dói.
Mas talvez seja esse desconforto o primeiro sinal de amadurecimento.

Comentários
Postar um comentário
Respeito é tudo. Obrigado