Ladroagem circunstancial e a pedagogia silenciosa da barbárie
Outro dia, ao
reler o livro de Mário Sérgio Cortella, pensar bem nos faz bem, uma
compilação de seus comentários na CBN, fui novamente atravessado por aquela
sensação estranha que só os bons textos provocam: o incômodo que desperta a
consciência. A ideia de transformar reflexões de rádio em livro foi brilhante.
O que antes era passageiro torna-se permanência. E, assim, nós, leitores,
passamos a ter nas mãos uma fonte viva de provocações sobre aquilo que somos,
fazemos e toleramos.
Entre tantos
textos instigantes dessa coleção, há um que sempre me inquieta de modo
especial: “Ladroagem circunstancial”. Ele não fala apenas de corrupção
no sentido jurídico, mas de algo mais fundo, mais sutil e, por isso mesmo, mais
perigoso: a educação moral deformada que vai se formando no cotidiano,
nos pequenos gestos, nas pequenas concessões, nos pequenos “jeitinhos” que vão
moldando sujeitos adaptados ao desvio.
Cortella
descreve um tipo humano muito comum entre nós: aquele que não se reconhece como
desonesto, mas que se permite a desonestidade quando as circunstâncias
parecem favorecer. Não é ladrão por identidade, mas por oportunidade. É o
sujeito que diz: “não costumo fazer isso”, mas faz. Que afirma: “não concordo
com corrupção”, mas se beneficia dela quando pode. A ladroagem deixa de ser um
desvio excepcional e passa a ser um comportamento circunstancialmente
aceitável. E isso, talvez, seja ainda mais grave do que a corrupção
declarada.
Nesse ponto,
Cortella nos leva a um diálogo provocador com Humberto de Campos, que em seu
livro de memórias, publicado em 1933, coloca em xeque uma das frases mais
famosas de Machado de Assis: “a ocasião não faz o ladrão, apenas o revela”.
Para Machado, o ladrão já existe em potência; a oportunidade apenas o desvela.
Humberto de Campos discorda. Para ele, a ocasião é cúmplice do ladrão —
é ela que ensina, que seduz, que empurra. A circunstância não só revela: ela
também forma.
E aqui o texto
de Cortella ganha uma força quase profética quando o confrontamos com a nossa
realidade recente. A ascensão do bolsonarismo, eleito democraticamente,
não pode ser lida apenas como um acidente político. Ela é também um efeito
pedagógico de longo prazo de uma sociedade que aprendeu a relativizar a
ética, a naturalizar a violência simbólica, a banalizar o autoritarismo e a
converter a ignorância em virtude.
O que vimos — e
ainda vemos como herança — foi uma degradação não apenas institucional, mas civilizatória.
Ataques ao conhecimento, desprezo pela ciência, desprezo pela vida,
normalização da mentira, exaltação da brutalidade como força. Nos campos
público e privado, multiplicaram-se exemplos de corrupção, desvio de recursos,
evasão fiscal, desprezo pelas regras mínimas de convivência. Tudo isso formando
lentamente um ambiente de barbárie com verniz de normalidade.
E o mais
assustador: grande parte disso foi sustentada por pessoas que, individualmente,
jamais se autodefiniriam como corruptas, violentas ou antidemocráticas. Mas
que, nas “circunstâncias certas”, defenderam o indefensável,
justificaram o injustificável e silenciaram diante do inaceitável. Eis a
ladroagem circunstancial em sua versão política e moral mais ampliada: quando a
ocasião não apenas revela o ladrão, mas ensina a roubar o próprio sentido da
democracia.
O bolsonarismo
não surgiu do nada. Ele foi sendo preparado no solo fértil de uma sociedade que
aprendeu, ao longo de décadas, a conviver com pequenas corrupções, pequenos
privilégios, pequenas mentiras, pequenas violências. Até que um dia essas
pequenas coisas se uniram e ganharam forma de ideologia, discurso e poder. A
ocasião, mais uma vez, foi cúmplice.
Talvez a
pergunta mais incômoda que o texto de Cortella nos obriga a fazer não seja
“quem são os culpados?”, mas algo ainda mais duro: o que, em nós mesmos, foi
educado para tolerar isso tudo? Em que momentos aceitamos que a ética fosse
dobrada pela conveniência? Em que momentos o silêncio nos pareceu mais
confortável que a responsabilidade?
Pensar nisso
dói. Mas é uma dor necessária. Porque só há esperança de reconstrução quando
temos coragem de encarar, sem anestesia, as nossas próprias cumplicidades —
mesmo aquelas que chamamos, comodamente, de “circunstanciais”.

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