Um homem pode cair, uma ideia precisa ser confrontada
Jair Messias
Bolsonaro foi julgado, condenado e está preso. Mas o bolsonarismo; não.
Essa frase, simples e dura, carrega uma verdade incômoda: a queda de um homem
não significa, necessariamente, a queda do mundo que ele ajudou a fortalecer.
O erro histórico
das sociedades é acreditar que os grandes males moram apenas nos indivíduos.
Como se o problema fosse sempre uma pessoa, um rosto, um nome próprio. Mas
ideias não têm algemas. Elas atravessam prisões, mudam de casa, adaptam a
linguagem, trocam de roupas e seguem caminhando entre nós. O bolsonarismo,
enquanto visão de mundo, não é apenas um fenômeno político passageiro; ele é
também um sintoma social, um espelho quebrado de nossas próprias
contradições.
Aqui, a Filosofia
se torna vital. É ela que nos ensina a desconfiar do óbvio, a perguntar quando
todos repetem, a duvidar quando todos aplaudem. Sem filosofia, a sociedade vira
presa fácil da propaganda, do messianismo político, das certezas rápidas.
Pensar, nesse tempo de gritos, é quase um ato de resistência.
A Política,
por sua vez, não pode ser reduzida ao jogo sujo do poder. Política é, antes de
tudo, a arte trágica e necessária da convivência. Quando ela é sequestrada pelo
ódio, pelo autoritarismo e pela lógica do inimigo, perde sua função de mediação
e se transforma em máquina de exclusão. O bolsonarismo floresce exatamente
nesse terreno: onde a complexidade é odiada e a violência simbólica vira
método.
Já a Educação
aparece como o ponto mais frágil e, ao mesmo tempo, mais decisivo desse embate.
Não há saída ética sem educação crítica. Não há democracia viva com pensamento
atrofiado. A herança mais perigosa do bolsonarismo talvez não esteja em leis ou
discursos oficiais, mas no cotidiano: na naturalização do desprezo pelo
saber, no orgulho da ignorância, na hostilidade ao professor, na moral
transformada em arma.
Sob o olhar da Antropologia,
vemos um país que sempre conviveu com estruturas autoritárias disfarçadas de
ordem. O bolsonarismo apenas reaqueceu velhos fantasmas: o culto à força, o
patriarcalismo agressivo, a desumanização do “outro” que pensa diferente. Nada
disso surgiu do nada; tudo isso tem raízes profundas na nossa formação
histórica.
A Sociologia
revela como esse movimento se alimenta das desigualdades, do abandono social, dos
privilégios herdados, da frustração coletiva. Onde falta Estado, sobra discurso
fácil. Onde falta direitos, sobram salvadores da pátria e ou mitos. A exclusão
produz terreno fértil para líderes e doutrinadores religiosos que prometem
respostas simples para problemas complexos.
Já a Psicologia
Social aponta para algo ainda mais delicado: o bolsonarismo opera pelo
medo, pela identificação afetiva, pela construção de inimigos imaginários. Ele
não se sustenta apenas por argumentos, mas por emoções primárias: raiva,
ressentimento, sensação de perda e ameaça. Por isso, combatê-lo apenas com
dados e estatísticas é insuficiente. É preciso também tocar as camadas
emocionais da sociedade.
Nada disso se
resolve com a prisão de um homem. A Justiça cumpre seu papel jurídico, mas a
História exige mais. Exige uma reconstrução simbólica, ética e educativa. Exige
que reaprendamos a conviver, a discordar sem destruir, a pensar antes de
reagir.
O bolsonarismo,
enquanto herança, deixa marcas no modo de falar, de educar, de julgar, de
odiar. Ele infiltra pequenas violências no dia a dia: na família, na escola, no
trabalho, na fé. Combatê-lo, portanto, não é apenas um ato político; é um gesto
civilizatório.
Se a prisão de
um líder pode trazer alívio momentâneo, somente a educação ética,
sustentada pela filosofia crítica e por uma política verdadeiramente
pública, pode oferecer algo mais duradouro: a possibilidade real de que
novas gerações não precisem repetir os mesmos erros travestidos de esperança.
No fundo, a
frase que deu origem a este texto nos devolve uma responsabilidade difícil de
evitar:
um homem pode cair, mas uma sociedade só muda quando decide,
conscientemente, não mais se ajoelhar diante da própria ignorância.

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