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Episódio 8 – O golpe de 2025 e a longa sombra da ARENA


 

“A democracia no Brasil ainda luta contra fantasmas do passado — mas quem alimenta esses fantasmas?”

A sombra da ARENA não é só um vestígio: é um fio que, em momentos específicos, reaparece com força renovada. O golpe de 2025, isto é, o processo judicial que apurou e condenou o núcleo que tentou subverter a ordem democrática após as eleições de 2022, abriu uma ferida e, ao mesmo tempo, mostrou a resistência das instituições. Para entender esse episódio é preciso 1) mapear como setores políticos e sociais ligados a estruturas herdadas da ARENA se articularam, 2) revisitar a biografia e a trajetória de Jair Bolsonaro à luz dessas redes, 3) entender por que a tentativa de golpe é um crime específico contra o Estado democrático e 4) avaliar o significado político do julgamento e das reações no Congresso e na sociedade.

Como setores ligados a partidos descendentes da ARENA se alinharam ao movimento golpista

Não houve, no Brasil contemporâneo, uma mera passagem de siglas; houve persistência de redes de poder; oligarquias regionais, bancadas parlamentares e interesses econômicos, que, em momentos de crise, alinharam-se a projetos e lideranças que propunham a ruptura institucional. Em 2025, essa articulação se manifestou em duas frentes claras: uma ação judicial que responsabilizou lideranças políticas e militares pelo esquema de tentativa de golpe; e manobras legislativas que buscaram blindar réus e simpatizantes (propostas de anistia e emendas que dificultam investigações e prisões de parlamentares). Reportagens e levantamentos mostram que uma parcela significativa dos votos que aceleraram a tramitação do projeto de anistia e da chamada “PEC da blindagem” veio de partidos como Republicanos, PSD, MDB, União e PP, siglas que, em vários estados, agregam oligarquias com raízes na política do período autoritário.

Isso não significa que todo o quadro partidário é monolítico. Mas demonstra que setores poderosos do Congresso colocaram, em 2025, a negociação política acima da necessidade de responsabilização, oferecendo à sociedade o dilema: justiça ou pacto de impunidade. A tentativa de anistia e a aprovação de urgências legislativas para tratar do tema sinalizaram, por parte de uma fração do Parlamento, uma disposição a relativizar as regras democráticas em troca de proteção política.

Jair Bolsonaro — uma biografia (breve, política e relevante para o episódio)

A trajetória pública de Jair Messias Bolsonaro ajuda a entender a dimensão simbólica do conflito. Oficialmente formado na Academia Militar de Agulhas Negras e ex-capitão do Exército, Bolsonaro deixou a caserna e construiu carreira política como vereador e depois deputado federal por quase três décadas, um percurso que o tornou porta-voz de um discurso militarizado, conservador e autoritário. Essas credenciais militares e o estilo agressivo de comunicação foram fundamentais para sua construção como líder populista

A sua família, sobretudo os filhos que ingressaram na política, ampliou esse capital simbólico em redes regionais. Flávio e outros filhos foram protagonistas de episódios que ligaram o clã Bolsonaro a nomes ligados a estruturas paramilitares e a redes de proteção local, tema investigado por jornalistas e por estudiosos das milícias. As conexões entre o clã e certas figuras do mundo das milícias foram documentadas em reportagens e, sobretudo, mapeadas com profundidade nas investigações jornalísticas e nos trabalhos de campo de Bruno Paes Manso

Milícias, igrejas e crime organizado: o aporte documental de Bruno Paes Manso

Bruno Paes Manso mostrou, em A República das Milícias e em A Fé e o Fuzil, como redes locais de violência e dominação, que têm antecedentes em esquadrões da morte e em aparatos paramilitares, confluíram com atores políticos e com setores do mercado e da religião no país contemporâneo. Esses trabalhos documentam (com entrevistas, documentos e pesquisa de campo) a emergência de uma relação híbrida entre milicianos, políticos e lideranças religiosas que, em espaços locais, passam a oferecer proteção, autoridade e representação política, sempre com ganhos econômicos e simbólicos para o grupo. Esses laços explicam parte da base social e territorial que deu suporte a discursos e atores que, mais tarde, radicalizariam posições antiinstitucionais.

É preciso dizer com clareza: a literatura jornalística e acadêmica distingue entre laços diretos de filiação criminal e relações de conivência/benefício político. Em muitos casos as provas documentam relações de cooperação e mutualismo, empregos, pagamentos, favores, que criam dependência política e justificam privilégios. Essa dinâmica explicou, em algumas cidades e bairros, por que a retórica autoritária teve tradução prática e por que militantes e facções aceitaram projetos antiparlamentares.

 

Por que a tentativa de golpe é crime contra o Estado Democrático (e qual o fundamento jurídico)

A legislação penal brasileira incorporou, recentemente, dispositivos específicos para proteger a forma democrática de Estado. A Lei nº 14.197/2021 acrescentou ao Código Penal os artigos que tipificam os crimes contra o Estado Democrático de Direito, entre eles as figuras da tentativa de abolição violenta do Estado democrático (art. 359-L) e a tentativa de golpe de Estado (art. 359-M). Essas tipificações criminalizam condutas que atuem para impedir o funcionamento de um dos poderes ou para depor um governo legitimamente constituído por meio de violência, grave ameaça ou organização armada. No processo conhecido como AP 2668, a acusação baseou-se exatamente nesses dispositivos.

Em termos políticos e civis a diferença é crucial: não se trata apenas de vandalismo contra um prédio público, mas de uma ação que visa dissolver a autoridade soberana da Constituição. Por isso, quando o Judiciário reconheceu provas de organização criminosa armada, de planejamento e de intenção de abolir o Estado democrático, o tema entrou no campo do direito penal constitucional, a preservação da forma democrática é um bem jurídico tutelado, sem o qual todo o sistema de direitos e garantias se desfaz.

O julgamento de 2025 — decisão, significado e efeitos imediatos

Em setembro de 2025 a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal proferiu decisões que resultaram na condenação de ex-presidente e de integrantes do seu núcleo por crimes relacionados à trama golpista. As penas aplicadas foram pesadas, e o julgamento teve profundo significado simbólico: mostrou que, em condições conflitivas, o Judiciário pode responsabilizar atores de topo por tentativas de subversão democrática. Para parte do país a decisão foi um ponto de reparação histórica; para outra parte foi um argumento para campanhas por anistia e “pacificação”.

Importante: a condenação não encerra a disputa política. Nas semanas seguintes houve forte reação parlamentar, com movimentos para aprovar propostas de anistia e emendas que protejam parlamentares de prisões rápidas, mecanismos que muitos interpretaram como tentativa de reversão prática do efeito das condenações. Essa tensão entre os poderes (Judiciário versus Legislativo) e entre a lei e a política é a chave para entender por que a crise de 2025 foi muito mais que um julgamento: foi um momento de definição sobre se a democracia brasileira aceitava limites de impunidade.

O papel de famílias e políticos herdeiros na narrativa autoritária atual

A genealogia política que trabalhamos na série reaparece aqui: dinastias regionais e famílias com tradição política souberam transformar capital social e redes de clientelismo em influência partidária. No caso contemporâneo, muitas lideranças consideradas “herdeiras” de mecanismos de poder (controle de máquinas públicas, laços com grupos econômicos locais, cooptações religiosos) foram mobilizadas para legitimar ou abonar práticas e narrativas que relativizavam a gravidade dos atos antidemocráticos. A política como herança funciona muitas vezes como propriedade: quem tem nome e máquina consegue proteger interesses, articular apoio e comprar silêncio.

Isso não é naturalidade histórica; é construção: gerações de capital político transmitido, combinado com redes de proteção jurídica e parlamentar, criaram condições para que atores questionassem o resultado eleitoral e tentassem, por meios ilícitos, permanecer no poder.

A persistência da ideia de que a democracia é “negociável”

Os eventos de 2025 expuseram outra realidade perigosa: para frações relevantes do aparelho político, a democracia aparece como um instrumento negociável — algo que se abre e fecha conforme acordos de conveniência. A pressão por anistia, a votação de medidas que aumentam a blindagem de parlamentares e o discurso público que relativiza as condenações são sinais de que, para alguns, o jogo político inclui a possibilidade de anular as consequências legais de atos antidemocráticos. Essa lógica corrói a confiança nas instituições e transforma a memória histórica num estoque de disputas a ser usado conforme interesses.

Reflexão

A ARENA foi, em seu tempo, instrumento de legitimação de um regime que dizia agir em nome da ordem. O golpe de 2025 mostrou que, quando a combinação entre setores poderosos, redes locais de violência, atores religiosos conservadores e uma fração parlamentar se alinham, a democracia fica vulnerável.  Não apenas a tanques, mas a manobras políticas que tentam apagar responsabilidades. A grande pergunta permanece: quem alimenta esses fantasmas? São elites que preferem a ordem sobre a igualdade, atores econômicos que priorizam estabilidade financeira sobre liberdade, e redes locais que transformam coerção em representação. Entender e nomear essas forças é o primeiro passo para combatê-las.

👉 Ditadura com farda ou com celular? O que muda e o que permanece?

O que muda são as ferramentas. O que permanece é a lógica de exclusão, a naturalização das desigualdades e a ideia de que a democracia pode ser negociada.

👉 Convite ao leitor

Esse episódio é parte da série ARENA – A sombra da ditadura na política brasileira, publicada no blog Sintonia das Ideias.

📖 Leia os episódios anteriores, compartilhe e participe da reflexão: o quanto do Brasil de hoje ainda é prisioneiro dos fantasmas da ARENA?

Próximo Episódio:

Episódio 9 – O que fazer com essa herança?

 

Referências (seleção, ABNT)

MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020.

MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023.

FICO, Carlos. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004.

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

(Fontes jornalísticas e legais citadas no texto) — Ex.:

  • REUTERS. Brazil's Bolsonaro sentenced to 27 years after landmark coup plot conviction. 11 set. 2025.
  • AP NEWS. Brazilian Supreme Court panel sentences Bolsonaro to more than 27 years in prison for coup attempt. 11 set. 2025.
  • AGÊNCIA BRASIL (EBC). Por 4 a 1, STF condena Bolsonaro e mais sete pela trama golpista. 11 set. 2025.
  • REUTERS. Brazil's Congress fast-tracks amnesty bill that could include Bolsonaro. 18 set. 2025.
  • PODER360 / levantamento de votações sobre urgência da anistia. 17 set. 2025.
  • PLANTÃO JURÍDICO / documentos do processo AP 2668 e alegações finais (relatório e peças processuais).

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