O Fetiche Brasileiro pelos EUA, o Bolsonarismo e a Nossa Ignorância Existencial
Há algo
estranho, quase patológico, na relação que o Brasil construiu com os Estados
Unidos. Não é apenas admiração: é fetiche. E, como todo fetiche, ele
carrega uma dimensão de submissão, um desejo secreto de ser possuído pelo
outro, de se anular para viver a vida do outro. O problema é que, nesse jogo,
quem perde sempre somos nós.
O fenômeno do bolsonarismo
é um espelho desse desejo infantil de “ser aceito” pelos donos do poder global.
É a tradução política de um complexo de vira-lata que nunca superamos.
Não é por acaso que vimos, nas manifestações bolsonaristas, bandeiras dos EUA
sendo erguidas com mais fervor do que a nossa própria bandeira. Não é
coincidência que muitos repetem, com devoção quase religiosa, os slogans
trumpistas, como se Trump fosse um messias tropical.
O bolsonarismo
se alimenta dessa fantasia de que seremos melhores se formos mais parecidos
com os americanos. Acredita-se que, ao imitar o modelo deles, herdaremos
sua força, seu prestígio, seu poder. Mas o preço é alto: perdemos autonomia,
entregamos soberania e passamos a defender, com orgulho, interesses que nos
prejudicam.
Quer um exemplo?
O “tarifaço” norte-americano. Parte da base bolsonarista defende
abertamente que os EUA têm o direito de impor tarifas contra nossos produtos —
como se nós fôssemos um quintal obediente. Para essas pessoas, os interesses
americanos estão acima dos nossos. É um amor unilateral: um Brasil que se
ajoelha, enquanto o “mestre” do norte sorri, nos explora e nos chama de
parceiro.
Outro exemplo
ainda mais grave: a defesa, por parte de alguns grupos, de uma intervenção
americana nas decisões do judiciário brasileiro. É o auge da servidão
voluntária. Para essas pessoas, o Brasil não sabe se governar; precisa que um
“pai” estrangeiro venha colocar ordem na casa. Não percebem que esse desejo não
é liberdade — é autoaniquilação.
Raízes históricas: o extrativismo e a
elite dos privilégios
Para entender
por que chegamos até aqui, precisamos voltar ao início.
Como mostrou Caio Prado Júnior em História Econômica do Brasil, o
país nasceu sob um projeto extrativista: desde o pau-brasil, passando
pela cana, ouro, café e, hoje, commodities, a lógica sempre foi explorar
recursos para fora, servindo aos interesses de potências estrangeiras.
“A colonização
do Brasil se constituiu como uma empresa comercial, e não como um projeto de
povoamento ou nação.” — Caio Prado Júnior
Essa mentalidade
moldou não só nossa economia, mas a alma nacional. O Brasil nunca foi
pensado para ser um país de cidadãos — foi construído como um grande balcão de
exportação. Nossa elite, desde a colônia e a monarquia, se habituou ao papel
de intermediária: extrair riquezas, vender barato e viver do prestígio
derivado da proximidade com os centros de poder externos.
Isso criou uma
elite dependente e preguiçosa, que não pensa o Brasil, apenas pensa em
si mesma. Ela herdou os privilégios da coroa, atualizou-se com a república
e hoje se manifesta como um grupo incapaz de imaginar um projeto de nação.
Prefere copiar modelos, buscar tutores e manter privilégios, ainda que isso
custe a soberania nacional.
O papel da educação na submissão
nacional
Mas há outro
fator decisivo, e aqui entramos no que eu já analisava no livro de minha
autoria: “Filosofia, Política e Educação
Desde o período
colonial, a educação foi desenhada não para formar cidadãos críticos,
mas para treinar mão de obra dócil. Uma Escola para os pobres e uma
outra para a elite.
A escola, com
raras exceções, sempre funcionou como fábrica de obediência: ensina a
repetir, mas não a questionar; a servir, mas não a criar; a admirar o que vem
de fora, mas não a valorizar o que é nosso.
Essa lógica se
manteve ao longo dos séculos, atravessando monarquia, república, ditaduras e
democracias. Até hoje, a maioria das reformas educacionais tem como prioridade atender
às necessidades do mercado e atrair investimentos externos, e não
construir uma cidadania ativa.
O resultado
disso é devastador:
- Formamos gerações que não se reconhecem como
sujeitos históricos.
- Naturalizamos a ideia de que somos um povo
atrasado que precisa de modelos e tutores.
- Criamos um ambiente perfeito para que fenômenos
como o bolsonarismo floresçam: uma política baseada no medo, na
idolatria de líderes autoritários e na submissão simbólica a potências
estrangeiras.
Essa falha
educacional não é um acidente. É um projeto político que serve muito bem
aos interesses de uma elite que se mantém no poder justamente porque o povo não
é incentivado a pensar como nação.
Governo atual: entre a soberania e a
pressão externa
O governo
Lula, com todas as suas contradições, tenta romper com essa lógica secular.
Sua política externa busca construir um Brasil soberano e multipolar,
diversificando parcerias com China, Europa, África e América Latina, para
reduzir a dependência histórica dos EUA.
Mas enfrentar um
sistema de séculos de submissão não é fácil.
A pressão dos interesses americanos é gigantesca — sobretudo dos setores
republicanos alinhados ao trumpismo, que não aceitam um Brasil autônomo.
Internamente, a resistência da elite econômica e política também é feroz, pois
ela prefere um Brasil ajoelhado, onde seus privilégios não sejam
ameaçados.
O espelho que nos atormenta
O problema
central não é só político ou econômico: é existencial.
Somos um país que ainda não aprendeu a se olhar no espelho.
Vivemos com os olhos voltados para fora, aprendendo a nos sentir pequenos,
acreditando que seremos alguém apenas quando deixarmos de ser nós mesmos.
O bolsonarismo é
apenas a expressão mais explícita desse desejo inconsciente de submissão. Ele
veste a fantasia de liberdade, mas sonha com tutores. Exalta a pátria, mas se
ajoelha diante da bandeira de outro país. É a adolescência política
transformada em ideologia.
Romper com isso
exige coragem. Significa enxergar nossas feridas históricas, reconhecer
a estrutura extrativista que ainda molda nossa economia e confrontar uma elite
que lucra com a nossa dependência. Significa repensar radicalmente nossa
educação, para formar cidadãos pensantes, e não apenas trabalhadores
para atender interesses externos.
Nenhum país se
torna grande imitando outro. Nenhuma nação conquista dignidade de
joelhos.
Enquanto não
enfrentarmos essa realidade, continuaremos divididos entre os que lutam por
soberania e os que imploram por tutela. E, nesse conflito, seguiremos incapazes
de nos reconhecer.
O Brasil
precisa, urgentemente, quebrar o espelho colonial — ou viveremos
eternamente como sombra, confundindo progresso com servidão.

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