"Fazer o direito ou fazer justiça?"
Muitos entram no
curso de Direito acreditando que vão defender a justiça. Sonham com
tribunais onde a verdade sempre vence, onde cada pessoa tem o que merece e onde
o sistema funciona como um grande guardião do bem comum. Mas, com o tempo, a
realidade cobra uma pergunta incômoda: o direito é, de fato, sinônimo de
justiça?
A frase “Não
faça só o direito, mas faça justiça” revela um conflito profundo. Ser um
bom advogado, juiz ou promotor não é apenas conhecer as leis. É lidar com um
dilema ético que acompanha cada decisão: seguir a norma ou ouvir a
consciência?
O peso da escolha
Nos tribunais,
não raro, vemos profissionais que usam a lei para criar narrativas,
distorcer fatos e amenizar a culpa de quem cometeu erros claros. Não é
incomum que se mintam verdades, que se escondam provas, que se transformem
culpados em vítimas e vítimas em culpados. E tudo isso… dentro da lei.
Mas será que o
simples fato de ser legal torna uma ação justa?
Será que a ética
pode se calar diante de um contrato ou de um código?
O perigo é
quando o direito vira técnica e o profissional do direito passa a
enxergar o mundo como um jogo de estratégias, esquecendo que por trás de cada
processo existem vidas.
O silêncio da ética
Hannah Arendt
falava sobre a banalidade do mal — como o sistema pode normalizar
condutas que, isoladas, seriam moralmente inaceitáveis. É isso que acontece
quando advogados, juízes e promotores se acostumam a “apenas fazer o seu
trabalho”, sem se perguntar quem está sendo protegido e quem está
sendo silenciado.
Não se trata de
negar o direito à defesa, que é um princípio sagrado. Trata-se de lembrar que defender
não é inventar. Que atuar no direito é também assumir um compromisso
com a verdade e com a dignidade humana.
Quando a lei falha
O grande
problema surge quando a lei serve mais ao dinheiro e ao poder do
que à equidade. Quem pode pagar os melhores advogados quase sempre encontra
brechas para escapar; quem não pode, sofre o peso de um sistema que se diz
justo, mas que não trata todos de forma igual.
É nesse ponto
que surge o convite à reflexão: fazer o direito pode ser apenas cumprir
normas. Fazer justiça exige algo maior: coragem para confrontar a letra
fria da lei quando ela trai a própria humanidade.
Um chamado para os estudantes e
profissionais
Para quem estuda
ou atua na área, talvez a pergunta mais importante não seja “qual artigo da
lei se aplica?”, mas “que mundo estou ajudando a construir?”.
- É ético defender alguém que sabemos ser culpado?
- Até onde vai a técnica e onde começa a
consciência?
- O cliente, o sistema, a verdade… para quem
devemos lealdade?
O direito
organiza a sociedade.
A justiça humaniza
a sociedade.
E sem ética, os
dois perdem o sentido.
Para pensar…
Talvez, no fim,
a frase não seja apenas um conselho profissional.
Talvez seja um chamado existencial:
“Não se esconda
atrás da lei para justificar o silêncio diante da dor do outro.
O verdadeiro direito nasce quando escolhemos, antes de tudo, fazer justiça.”

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